pequenos escritos #2
- 22 de mai.
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não vai ter copa*
ligo para minha prima depois de uma troca de mensagens. sonhei com você, como está? estou bem, vamos falar? me questiono se ela ficou preocupada, pois meus sonhos costumam significar, talvez algo esteja acontecendo com ela, ou será que imaginou algo ruim por vir? ligo o computador, ela aparece e me pergunta como estão as coisas. digo que bem, ainda que nesse turbilhão da vida, acontecendo tanto fora e dentro. e você, como estão as coisas aí? eu acho que vai ser impossível ir à copa, ela diz com um sorriso no rosto. no “aí” da minha pergunta, estava implícita a vida dela, das pessoas de seu núcleo familiar, mas também estava implícito a dúvida de como está viver nos estados unidos sendo imigrante, ainda que legal e em todo seu mundo de privilégio e saber que pessoas estão sendo presas o tempo todo pelos agentes do ice (o serviço de imigração e alfândega norte-americano) e como isso deve ser assustador – será que ela já viu?! e estava implícito querer saber o dia a dia de viver em um lugar cujo líder está fazendo tudo isso e ainda sequestrou o presidente de outro país nesse meio tempo e postou recentemente que aquele lugar é o 51º estado americano, e a crise interna estadunidense com todos esses fatores - que a astrologia me faz acreditar ter grandes chances de ser o caminho para uma guerra civil e eu já comentei com ela o assunto quando hollywood também se atentou ao fato com o filme com wagner moura e kirsten dunst. a resposta dela é tão inesperada que por um momento eu me perco. fico zonza, mas volto e pergunto: vai ter copa? ela ri. eu rio também para me liberar do susto. começa a explicar os detalhes e eu faço minha projeção astral, escuto sem escutar, não consigo ficar no corpo enquanto ela fala como funciona os sorteios dos ingressos, que dependem de um certo número de fatores, e a partir daqui eu não sei mais o que foi dito. estou discretamente procurando as datas do torneio e descubro que júpiter entra em leão no meio do período, prestes a fazer oposição a plutão. o que será que estará acontecendo nesse tão perto, tão longe? este ano já mostrou: tudo é possível e rapidamente pode mudar. no meio da conversa, ela começa a andar com o celular pois a faxineira que trabalha diariamente em sua casa chegou, vai abrir a porta. buenos días, buenos días, escucho. penso que na minha vida também falo muito espanhol, tenho pessoas amadas de diferentes lugares da américa latina. as fronteiras não existem mais. ao mesmo tempo elas existem tanto, em tantas camadas e estão cada vez mais bélicas. lembro do amigo da guatemala que está com visto prestes a vencer, a caminho do paraguai, para entrar de novo no brasil e ganhar mais três meses para tentar organizar sua vida. somos todos americanos, o benito lembrou em sua apresentação.
*escrevo com o canto das manifestações de 2014 anti–copa ecoando na minha cabeça. que besteira! ao mesmo tempo, como era bom acreditar que podíamos mudar o mundo. eu ainda acredito – (acho)!



