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como existir sem existir?

  • 30 de abr.
  • 6 min de leitura

eu fiz essa pergunta em 2022, em um momento bem específico meu e também da humanidade: a pandemia estava abrandando, o mundo se abria, nos despedíamos das máscaras. tudo o que havíamos vivido, e em algum momento pareceu que jamais acabaria, comprovava que a frase é real: na vida tudo tem começo e fim. ou, como disse nego bispo, “começo, meio e começo”, e assim recomeçamos a vida pós este grande trauma generalizado, como se nada tivesse acontecido. durante o período da covid, eu havia mudado de estado (e região no país), e depois de cidade, e então para um pequeno município, e depois para outro e logo atravessado o oceano e me encontrava do outro lado do atlântico e lá via a possibilidade de voltar a interagir e conhecer gente depois de tanto tempo de isolamento social. mas algo ainda não funcionava e demorei para entender o motivo. culpava o longo período sem convívio como a causa pelo estranhamento no lidar com as pessoas. até perceber que eu não existia em uma parte da vida que era necessária para existir: eu não era um @, não tinha um perfil para chamar de meu.



eu saí das redes sociais pouco tempo antes do mundo mergulhar nelas de uma forma muito mais profunda com a pandemia. segundo dados da ONU a quantidade de usuários da internet foi de 4,1 bilhões em 2019 para 4,9 bilhões no final de 2021¹, um aumento de quase 20%. e dados nem são necessários, a grande maioria das pessoas sabe porque viveu isso: as lives de tudo que se possa imaginar, os compartilhamentos de pães de fermentação natural feitos em casa, as aulas de yoga via zoom e tantas outras coisas. naquele momento, por não podermos nos encontrar, o perfil ganhou um outro espectro e mesmo quem seguiu a vida trabalhando na rua, foi englobade por essa nova dinâmica. muita gente entrou nas redes nesse momento, mesmo que não fosse para postar, mas para “ver”, socializar ali e também ser consumidor.



já eu, fui na contramão. em março de 2020 eu completava um semestre sem ser perfil, sem me relacionar e acompanhar a vida das minhas pessoas por ali, sem descer o feed. acho que vale contextualizar aqui um pouco: sou do interior do estado de são paulo e me mudei para a capital para fazer faculdade de jornalismo. segui na cidade e na vida de workaholic, trabalhando na área de comunicação e cultura, ou seja, 24/7 online. vivi o nascimento das redes sociais no mercado e trabalhei por anos com elas. pessoalmente, não era a pessoa mais ativa, sempre achei menos mais. posts no feed do instagram eram raros, usava mais os stories na energia tinder&linked.in, mas aquilo tudo já estava me cansando — meu facebook já tinha sido abandonado há anos — e o ser perfil me incomodava de modo que eu tinha decidido só seguir nas redes pessoas que eu conhecia pessoalmente. mas só saí mesmo quando um sonho (o meu mundo antigo chamaria de projeto) acabou e eu resolvi reavaliar os caminhos que até ali eu tinha tomado. para isso era preciso silêncio, me perceber sem esse constante olhar e comparar do mundo e resolvi ficar um tempo desativada no mundo online. uma semana depois eu já tinha entendido que seria pra sempre.



isso quer dizer que quando a covid apareceu, eu já estava sem meu @. enquanto muitos (da minha bolha) postavam bravamente suas hashtags e foto da vacina, eu tinha voltado a ler e estudar. não vivi a explosão do tiktok e tive uma crise de riso nervosa em meu primeiro contato com os vídeos de pessoas adultas que não falam nada e ficam meio dançando, pulando e meio apontando coisas enquanto palavras aparecem escritas falando de assuntos sérios. a comunicação é algo tão poderoso. como a transformamos dessa forma? o que isso diz sobre o momento do mundo?




senti que deixei de existir em uma parte da minha existência, o que de fato aconteceu: para além de ter deixado as redes sociais, saí da cidade em que morava e isso tudo foi bom. me deu espaço para ser|estar na vida de outra forma. foi assim que comecei os caminhos que contei no início do texto, morei em lugares onde não existe internet nesse tempo, vivi outras formas de vida. ainda, durante a pandemia e nas estradas, tentei escrever para amigues mais próximos emails (cartas nos dias atuais), queria voltar a trocar em um lugar mais profundo que as mensagens, pois sim, eu mantenho whatsapp. mas depois de algumas respostas, não havia sequência. o tempo do mundo voltava a girar nos ritmos capitalistas e nele não há tempo para cartas.



daqui, quatro anos depois daquele primeiro reencontro com a civilização pós covid e poucos meses de completar sete anos de ter dado fim às minhas redes, eu sinto viver uma vida paralela. são diversas as matérias falando sobre quanto a vida online faz mal, a ansiedade que causa acompanhar as notícias o tempo todo, o FOMO (fear of missing out), aquela sensação de estar sempre perdendo alguma coisa acontecendo que o estar online 24/7 dá), o vício da tela. há também os relatos de como as redes atingiram as formas de lidar entre pessoas e as relações com o ghosting (o desaparecer, normalmente antes online, de uma pessoa da vida de outra), os stalkeamentos (a perseguição online), a polaridade que nunca foi tão grande e não permite a aproximação das pessoas em relações amorosas, de amizades e com a família também. ainda existe o efeito na estrutura física mesmo, com a busca por corpos perfeitos e procedimentos estéticos.



considero mais forte e ao mesmo tempo mais silencioso como isso tudo afeta o eu em um lugar inconsciente. ao criar essa auto-imagem a pessoa passa a acreditar na identidade apresentada na tela como a sua. se vive uma vida online deixando cada vez mais de viver a vida real e vemos isso materializado na geração z, já nascida com a existência das redes sociais. ela é mais ansiosa, mais solitária e não transa tanto quanto outras gerações³. afinal, se relacionar demanda lidar com o outro, ver com suas imperfeições e erros, aprender a se rever. na vida online, isso não é necessário da mesma forma. existe um outro tempo entre mandar e receber uma mensagem, mais devagar do que a conversa, onde se fica mais exposto. os assuntos estão limitados a pequenos minutos de aparição, ou textos. tudo é mais imagético. não são só impactados os gen-z, acontece com todes, afeta a mente humana se ver dentro da tela.



eu já fui afetada. quando saí das redes estava inconformada com o reforço positivo que as pessoas davam ao fato de eu estar perdendo peso. linda, tão magrinha! isso enquanto eu estava com um cálculo na vesícula agravado por uma crise de ansiedade extrema, em que mal conseguia comer e dormir. hoje já não passo por esse olhar externo, um alívio. tenho muito mais tempo livre. o brasileiro passa em média mais de nove horas por dia no celular, sendo que mais de três delas são em redes sociais². eu passo em média até seis horas por dia na frente da tela. normalmente, menos de uma hora por dia no meu celular — e grande parte tem relação com meu treino na academia ou se faço uma chamada de vídeo com alguém longe. meu maior tempo de tela é no computador, onde estou no word ou no aplicativo de astrologia, assunto que o tempo livre me fez voltar a estudar assim que desisti das redes sociais e hoje também é meu trabalho.



a astrologia, aliás, tem trânsitos que justificam essa hiperconexão. plutão entrou em aquário, signo no qual ficará por 20 anos. ao longo desse período o planeta (que já foi planeta, virou planeta anão mas para a astrologia moderna segue sendo planeta) vai mostrar o mal que as redes fazem e não de uma forma fácil. ele evidencia aquilo que não funciona da forma mais complexa. já urano em gêmeos, recém entrado em seu trânsito até 2033, vai confundir a informação, gerar muito conteúdo, possivelmente confundir — sim, infelizmente se espera que as fakes news e informações erradas aumentem. mas urano é radical e tenho esperança de que ele também corte o uso das redes para muita gente.



esses próximos anos serão de muitos (e rápidos) acontecimentos e mudanças, nos indica a astrologia. é só olhar para o que foi esses quatro meses e sabemos, não é? ter conhecimento disso abre às portas da percepção. por isso nesses anos resolvi ampliar também meus horizontes. morei na roça e aprendi a plantar, fiz curso de agrofloresta, estive em encontros com povos originários e convivi com mestres e mestras de saberes ancestrais. longe das cidades mas com as aberturas positivas que o mundo online trouxe, pude estudar também em um lugar “mais ocidental”. me aprofundei na astrologia, estudei ainda psicanálise, filosofia e literatura. sendo atravessada por esses tantos e diferentes aprendizados, por novas experiências e compreensões, resolvi existir aqui, com os textos . uma proposta da escrita como um acreditar na vida. se existe alguém aí do outro lado e quiser me escrever, vou adorar a troca. “erótico é alma”, diz adélia prado, poeta que amo e que emprestei o nome desse canal do poema “impressionista”. e eu quero uma vida cheia d’alma, sem artifícios!



fontes:

¹ onu news perspectiva global reportagens humanas

² pesquisa bain&company consumer pulse 2025

³ livro igen

 
 

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© impressionista 

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